ARTIGO: LEITURA E ESCRITA NO CONTEXTO EDUCATIVO
ELIENE SOUZA OLIVEIRA -PROFESSORA, GRADUADA EM LETRAS, PÓS GRADUADA EM METODOLOGIA DE ENSINO DO PORTUGUÊS E LITERATURA
A leitura e a escrita estão presentes em diversos aspectos de nossa vida e a escola não as deixa para trás, pois, é por meio da linguagem que o ser humano age, criando e recriando um mundo que não é só fruto de projeções e representações individualizadas por meio da língua, mas resultado de práticas sócio-interativas. Daí, afirmar-se que a língua é uma atividade constitutiva e criativa, que implica ação conjunta do sujeito e também considerar a concepção dos processos de oralidade e de escrita como práticas sociais e históricas atualizadas no uso efetivo da língua.
A leitura e a escrita, são duas modalidades da língua consideradas muito importantes no meio social. O ser humano precisa saber ler bem para que possa ter bom êxito em muitas áreas da sua vida. Esse ato, na maioria das vezes foi confundido com a possibilidade de reconhecer e decodificar o código escrito, todavia fazer isso é meramente decifrar. Ler envolve mais saberes e, como diria Rolland Barthes, muito mais “sabores”. Leitura é uma atividade primordial no contexto do mundo atual. Ela desperta nas pessoas hábitos e pensamentos, desenvolvendo a dimensão lógica e racional própria do ser humano, ao longo de toda a sua existência. Segundos os PCN: LP (SEF, 1997, p. 54):
Um leitor competente só pode construir-se mediante a uma prática constante de leitura de textos de fato, a partir de um trabalho que deve se organizar em torno da diversidade de textos que circulam socialmente. Esse trabalho pode envolver todos os alunos, inclusive aqueles que ainda não sabem ler convencionalmente.
Ao ler, desencadeamos mecanismos de organização e de estrutura formal inerentes ao texto. Mas, a atividade de leitura não deve restringir-se somente ao nível formal de apreensão do texto. Ela deve ser vista e entendida como uma atividade reflexiva, capaz de elaborar a experiência de vida e de desenvolver uma racionalidade e uma concepção de mundo. Para BRANDÃO (1997), o ato de ler é um processo abrangente e complexo; é um processo de compreensão, de intelecção de mundo que envolve uma característica essencial e singular ao homem: a sua capacidade simbólica e de interação com outro pela mediação da palavra.
A prática da leitura representa um fenômeno social, ou seja, um trabalho realizado por meio da leitura e da produção de texto é muito mais que decodificação de signos linguísticos. É um processo de construção de significados e atribuição de sentido; é uma atividade que ocorre no meio social através do processo histórico da humanização. Nesse sentido, o trabalho com a leitura e a escrita adquire o caráter sócio histórico do diálogo, segundo BAKHTIN (1981, p.95). “A linguagem por sua vez, constitui-se na representação social, a palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial”.
Ler é um processo dinâmico e ativo implicando não só a apreensão do significado do texto, mas a incorporação de nossa experiência e visão de mundo como leitor. A cada leitura essa interação dinâmica leitor/texto favorece a produção e a escrita de novo conhecimento e a expressão de uma linguagem diferenciada.
Ao conhecer o ato de ler como um processo dinâmico, naturalmente, está priorizando a formação de um leitor crítico e criativo.
Ler é quase comentar um texto; é sublinhar com a voz, as palavras essenciais... É ainda se colocar em harmonia com os sentimentos que o autor exprime entregá-los e comunicá-los em torno de si: um sorriso, uma voz emocionada, olhos em que se pode ver lágrimas despontando, tudo isso é um comentário que dura longamente. “Uma fisionomia fala tanto quanto a voz”. (CALAIS, 1907 apud: CHARTIER & HÉBRARD. P.261).
Entretanto, é necessário compreender que leitura e escrita são práticas complementares, fortemente relacionadas, que se modificam mutuamente no processo de letramento. São práticas que permitem ao aluno construir seu conhecimento sobre os diferentes gêneros, sobre os procedimentos mais adequados para lê-los e escrevê-los sobre as circunstâncias de uso da escrita. “Aprende-se a ler e escrever lendo e escrevendo, vendo outras pessoas lerem e escreverem, tentando e errando, sempre guiados pela busca do significado ou pela necessidade de produzir algo que tenha sentido”. (POSSENTI. 1997, p 67, 68,69).
Sabe-se que a leitura e a escrita são processos complexos e devem ser bem estruturados, pois a partir deles serão alicerçadas as demais aquisições do conhecimento. A humanidade evolui e à medida que isso acontece os desafios tornam-se cada vez mais difíceis e o individuo deve estar preparado para essa evolução.
Muitas vezes, aprendemos alguns modos de ler que já não mais condizem às necessidades do mundo atual. Desta forma cada leitor precisa “esquecer” algumas técnicas de ler adotadas pelas instituições educacionais que cada vez mais demonstram a sua ineficácia na formação de sujeitos leitores, e construir seus modos de ler. Para se obter uma boa leitura, é preciso levar em consideração algumas etapas nesse processo; são elas: a obtenção da informação; o uso consciente ou inconsciente de estratégias de compreensão leitora; a avaliação da informação obtida e a produção de um juízo de valor sobre o lido. Para SOLÉ (1998), a leitura é um processo de interação entre o leitor e o texto; neste sentido tenta-se satisfazer obter uma informação pertinente para os objetivos que guiam sua leitura.
A escola é o espaço privilegiado para desenvolver no educando habilidades de leitura e escrita, porém antes de tudo precisa estimular e conscientizar o aluno da importância de ler e escrever para o exercício da cidadania.
De acordo com as pesquisas governamentais do IDEB e da Provinha Brasil, a grande maioria dos alunos das escolas públicas do Brasil lêem pouco e escrevem mal.
O que está faltando para solucionar esse problema? Para esclarecer essa questão, é necessário explicitar as diferenças entre posições teóricas sobre o tema e a aprendizagem da leitura e da escrita e suas implicações didáticas. Então, faz-se necessário analisar pelo menos duas diferentes posições que definem diferentes didáticas.
Provavelmente a mais importante diferença entre as duas, no momento mais conhecidas vertentes da didática em nosso país está relacionada às diferentes concepções de aprendizagem que as fundamentam: o construtivismo interacionista de uma e o empirismo behaviorista das outras.
A metodologia do behaviorismo concebe o aprendiz como sujeito ativo, construtor de conhecimento. Como alguém que pensa sobre a escrita presente no mundo em que vive, desde que desse mundo também façam parte leitores que possam interpretá-la para ele. Por outro lado o construtivismo ignora o fato de que tratando a escrita como pura transcrição da fala, o que se obtém é uma linha direta para o analfabetismo funcional. Porém defende que para saber o que pensa o aprendiz sobre o sistema de escrita, é preciso solicitar-lhe que escreva textos que não lhe foram ensinados previamente e pedi-lhe para interpretá-lo logo depois de grafar cada elemento cada parte escrita. Então, fica evidente que pela abordagem behaviorista, não é possível supor que o aluno saiba algo sobre a escrita sem que alguém lhe tenha ensinado. Menos ainda que o aluno utilize as informações que capta para constituir um sistema de escrita que não existe em sua língua. Para TELMA WEISZ (2004 p. 57) “aprende-se a ler e escrever através de um processo dialético, no qual a aprendizagem acontece pela superação das contradições entre idéias do próprio aprendiz e destas com relação à escrita convencional.”
Diante disso, o problema da maioria dos alunos lerem pouco e escreverem mal se dá porque a teoria do conhecimento empirista dominou tudo o que se fez em alfabetização até a publicação no Brasil, do livro Psicogênese da Língua Escrita. Segundo FERREIRO (1987) “A redução do processo de alfabetização a simples memorização de um conjunto de correspondências grafônicas reduz também do sistema de escrita à mera aprendizagem de um código”.
Em razão dessas concepções citadas anteriormente observa-se que o individuo aprende a ler e escrever à medida que vai elaborando novas hipóteses sobre o sistema de escrita. Então, a oralidade e a escrita são, portanto, práticas interdependentes nas sociedades atuais e não podem ser tomadas como estanques e isoladas. Trata-se de processos que não são neutros, enquanto condições discursivas das formas de produção de conhecimento, e nem há entre eles uma supremacia em termos cognitivos, pois são modos de representação cognitivas e social que se revelam em práticas específicas.
A primícia fundamental do trabalho com a linguagem é buscar ver que o homem se comunica pela linguagem e tem acesso à informação, expressa e defende as suas opiniões, partilha ou constrói visões de mundo, enfim, produz conhecimento.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa (PCN/LP) destacam que a linguagem é uma forma de ação interdirecional orientada por uma finalidade específica; um processo de interlocução que se realiza nas práticas sociais existentes nos diferentes grupos de uma sociedade, nos distintos momentos da suas histórias. (p. 22 - 23).
Partindo desse pressuposto, a escola tem a responsabilidade de garantir aos alunos o domínio da língua oral e escrita, pois é ela o instrumento que lhes dá acesso a uma vida social plena. A língua é uma forma de comunicação necessária para o exercício da cidadania, já que amplia as possibilidades de informação e conhecimento. Essa habilidade pode ser construída e é uma das questões mais importantes no dia-a-dia da escola.
Portanto, para ter o domínio da língua é necessário que toda comunidade escolar – pais, direção, professores e alunos - tenham intimidade com a leitura e a escrita. Para chegar a esse nível, é necessário um prolongado convívio com os textos, uma verdadeira imersão na leitura. Um convívio que só experimenta quem é de fato leitor: quem consome livros, freqüentam livrarias, bibliotecas, bancas de revistas. Quando falta leitura, escrever é difícil. E o imaginário é mais pobre, a vida mais tosca e limitada. Então, fica fácil a escola avaliar se está, de fato, formando leitores, basta analisar. Seus alunos freqüentam a biblioteca com iniciativa própria? Tomam livros de empréstimo? Compram livros? Lêem de forma independente das atividades escolares? Estão formando sua biblioteca pessoal ou são sócio de uma biblioteca pública?
O mundo atual demanda gente capaz de usar a escrita para construir conhecimentos e se expressar. Por isso, a escola precisa reduzir o tempo gasto em exercícios gramaticais e fragmentos de textos e, investir de fato, em leitura extensiva. Formar leitores de obras literárias, onde a experiência de viver é confrontada e enriquecida; de ensaios e de textos científicos que ampliam o conhecimento. Então, é imprescindível que as escolas, de modo geral sejam ambientes culturais efervescentes, de onde possam sair grandes leitores, capazes de se expressar com desenvoltura usando a língua oral e escrita.
Diante disso, não se pode falar em educação, sem mencionar a língua, pois a aprendizagem está diretamente ligada com o ensino da linguagem e esta faz parte da identidade cultural de um povo. Para que haja educação igualitária para todos, precisa-se conhecer e respeitar as diferentes formas de falar de cada pessoa. Pois o campo educativo onde crianças e jovens se inserem, apresenta uma ampla diversidade de experiências marcadas pela própria divisão social do trabalho e das riquezas, o que vai delinear as classes sociais e, consequentemente, influencia na forma de falar de cada um. Assim, torna-se tão importante para a educação, se trabalhar com o uso correto da linguagem utilizada pelo educando.
Segundo POSSENTI (1997), à escola deve caber a função de permitir que todos os usuários da língua possam ter as mesmas condições, ao menos as linguísticas, para disputar espaços nos meios cultural, econômico, e profissional.
Nessa medida, os livros didáticos e o uso da gramática, também fazem parte desse contexto, já que apresentam variadas formas de se trabalhar a linguagem. A escola deve trabalhar para que todos os alunos, ao cabo de alguns anos, sejam capazes de ler e escrever, na língua padrão, textos das mais variadas tipologias; o que não se consegue apenas por exercícios, mas através de práticas significativas.
Contudo, POSSENTI (1997), salienta que é necessário fazer uma distinção entre o que seja saber gramática, saber fazer análises linguísticas e o que seja saber a língua – saber falar, escrever, e constituir-se, enfim em um usuário eficaz da língua.
Nesta perspectiva, nota-se que os educadores precisam refletir constantemente sobre as questões polêmicas que envolvem a leitura e escrita no mundo educacional. Para MOREIRA (1997), “a capacidade de refletir criticamente sobre sua própria prática e de articular essa reflexão para si próprio e para os outros, pode ser pensada como uma habilidade essencial que todo professor bem preparado deveria ter”.
Este blog foi criado com o objetivo de contribuir, com a metodologia para o trabalho com os objetos de ensino de Língua Portuguesa, partindo de atividades que envolvam o uso da língua, como produção e compreensão de textos orais e escritos em diferentes gêneros discursivos/ textuais,seguidas de atividades de reflexão sobre a língua e a linguagem a fim de aprimorar as possibilidades de uso.
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